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Último post do Casal Hortelão

do_fim_de_semana-6

Este será o último post do Casal Hortelão. O casal continua, a família continua mas o negócio, a empresa, essa terminou. Não chegámos a publicar muitos posts que achámos interessantes sobre técnicas, ferramentas e experiências, por vezes por falta de tempo outras vezes por falta de motivação para o fazer.

A verdade é que desde que abrimos a empresa em 2011 aprendemos imenso sobre ter um negócio, as coisas boas e as coisas difíceis. E se tivessemos hoje a energia que tinhamos há cinco anos atrás, com a experiência e aprendizagem que temos na bagagem, tenho a certeza de que conseguiríamos dar a volta e pôr o Casal Hortelão de novo a funcionar. Mas para se levar um negócio próprio para a frente a energia é imprescindível e nós atingimos um ponto de “burnout”, a expressão em inglês é a que melhor define o nosso cansaço e exaustão neste momento. Por isso decidimos parar por agora, refazer o plano com calma nos próximos anos, fazer as pazes com o negócio agrícola, cuidar da nossa família que entretanto cresceu, e um dia, quem sabe, começar de novo.

Mas não nos queríamos despedir de todos os que nos seguiram ao longo destes anos, os amigos, os clientes, sem ao menos tirar alguma coisa boa disto tudo. Por isso decidimos compilar neste post os principais erros e as principais lições que tiramos deste projeto, e deixar alguns conselhos a quem está a começar ou a pensar começar um negócio de agricultura biológica em Portugal.

Por nenhuma ordem em particular, os principais erros e dificuldades:

  • A nossa horta estava localizada num terreno alugado, e apesar de não ser algo que impede o negócio a verdade é que acaba por restringir as opções e a liberdade, principalmente se não for possível viver lá. A logística tornou-se complicada e fomos por várias vezes assaltados.
  • Outra dificuldade que tivemos e que tentámos ignorar foi estarmos os dois em part-time ou apenas um de nós a tempo inteiro dedicados ao negócio.
  • Achámos conseguir fazer tudo sozinhos – fizemos tudo sozinhos, os dois: site de raíz, cartões de visita, instalação da rega, mercados, preparação de cabazes, entregas, sementeiras, plantações, limpeza de ervas, colocação de plásticos, estacas, registos, regas, reparações, telefonemas e emails, fornecedores…
  • Demos alguns passos maiores que as pernas – estar em dois mercados e fazer entregas 3 dias por semana tirou-nos horas de trabalho na horta, horas de vida em família e energia, e sem render tanto como seria de esperar.
  • O termos aberto atividade como empresa foi sem dúvida um erro – queríamos fazer tudo certinho e partilhar o projeto entre os dois, mas para começar, sem experiência e sem muitos recursos financeiros deveríamos ter aberto atividade como agricultores até conseguirmos ter um rendimento estável e que justificasse as elevadas despesas de uma empresa.
  • Começar a distribuir produtos de outros produtores, em pequena escala não compensa. As margens são muito baixas e quando se encomendam pequenas quantidades os fornecedores não entregam, por isso perdemos muitas horas e tivemos muitos custos com combustível a ir de fornecedor em fornecedor. Além disso assistimos ao fenómeno de perda de clientes que deixaram de nos comprar porque se identificavam com o projeto “Casal Hortelão”, que não fazia sentido enquanto mero distribuidor.
  • Estivemos cinco anos a dizer que precisavamos de equipamentos e infraestruturas adequadas à nossa escala e às nossas tarefas diárias. Se é verdade que se calhar um trator não era imprescindível, também não fazia sentido prepararmos 20 camalhões com uma moto-enxada ao longo de uma semana – para além de muito mais demorado, o esforço físico era enorme e a eficiência muito reduzida. Teria valido a pena investir numa moto-cultivadora ou então num mini-trator logo de início com alfaias adequadas. Nunca construimos um armazém, uma zona de lavagem ou para as sementeiras, tudo infra-estruturas que nos teriam facilitado muito a vida e aumentado exponencialmente a eficiência e o rendimento das horas de trabalho.

As lições que tirámos foram muitas, e se pudessemos voltar ao passado e dar alguns conselhos àqueles dois jovens cheios de vontade de ser agricultores e mudar o mundo diríamos:

  1. Não tenham pressa em abrir uma empresa. Os custos são enormes: o contabilista técnico oficial de contas, os impostos, os pagamentos especiais por conta. E se forem empregados da empresa ainda há os salários e os custos com a Segurança Social… se não fizerem determinados mínimos por mês vão-se ver rapidamente aflitos para pagar as contas.
  2. Façam um plano de negócios completo e sólido. E quando chegarem à parte difícil das contas peçam ajuda! É mesmo importante saber de onde vem o dinheiro, para onde ele vai, quando vão atingir o break even. É também uma carta na manga quando e se precisarem de pedir financiamento a um banco ou apoios para o vosso projeto.
  3. Definam bem o que querem do vosso projeto. Definir bem o nicho (quem são os vossos clientes) e dediquem-se a eles. Se a escala é pequena, mantenham-se pequenos mas tornem-se nos melhores, produzam vegetais de alta qualidade, é isso que vos vai dar nome e respeito. Se acharem melhor especializarem-se, façam-no e sejam os melhores.
  4. Mantenham-se fiéis aos vossos valores e princípios. Se forem bons, consistentes, transparentes e não se deixarem distrair por pressões externas sobre como produzir ou como vender, serão melhores no que fazem e a longo prazo mais sustentável será o vosso negócio.
  5. Invistam sabiamente e a pensar no longo prazo. Mais uma vez, invistam em tudo o que traga eficiência e acrescente valor ao negócio. Se um mini-trator com as alfaias certas permitir preparar um bloco numa hora em vez de um dia à mão isso traduz-se em mais energia e mais horas disponíveis para outros trabalhos na horta ou para estudar ou melhorar sistemas. Uma caixa para sementeiras semi-automática; uma zona de lavagem e preparação dos vegetais; um armazém para guardar alfaias, ferramentas e fatores de produção a salvo de ladrões e ratos; uma mini câmara de frio para guardar as colheitas da véspera do mercado, ou produtos como courgette que tem de se apanhar todos os dias mesmo que não se vendam logo; são tudo investimentos que podem parecer elevados mas que a longo prazo melhoram a eficiência, o rendimento, a energia do agricultor.
  6. Peçam ajuda! Duas pessoas para cuidar de meio hectare pode ser o suficiente se ambos trabalharem o dia inteiro em full-time mas e as restantes facetas do negócio? Se o que gostam é de ter as mãos na terra não queiram ser contabilistas, vendedores, angariadores de clientes, web designers, fotógrafos, criadores de receitas, costureiros, serralheiros, motoristas/distribuidores, gestores. Não quer dizer que não possam meter a mão numa ou mais destas atividades pontualmente mas para serem bons a produzir têm de se dedicar à produção. Por isso não se distraiam da produção e peçam ajuda a quem é especialista em determinadas áreas. Contratem alguém para trabalhar na horta se for necessário e aceitem trabalho voluntário permanente/prolongado – toda a ajuda é pouca e a verdade é que as pessoas gostam de o fazer.
  7. Dito isto, pedir ajuda aos amigos é ótimo mas sempre que possível mantenham a contratação de trabalhos vitais para o negócio fora das amizades. Deixem que os amigos ajudem com tarefas e trabalhos assessórios mas que são sempre uma boa desculpa para reuniões animadas, como montar um barracão ou uma mini-estufa, pinturas, etc.
  8. E finalmente não guardem para vocês a vossa experiência, seja ela boa ou má porque vão certamente ajudar muitos que tentam trilhar os mesmos caminhos. Desde o início que apostámos na divulgação e isso terá sido talvez a coisa mais positiva da forma como gerimos o nosso projeto. Quando começámos todos pareciam esconder para si o segredo do negócio e tivemos imensa dificuldade em encontra informação, por isso definimos logo que iriamos partilhar tudo com quem encontrasse o nosso site ou o nosso blogue, ou os nossos clientes. Pedimos que façam o mesmo – divulguem este post, divulguem as vossas experiências com a agricultura, as dificuldades e as coisas boas.

Obrigada por estarem connosco nestes últimos anos!

19 comments to Último post do Casal Hortelão

  • Tristão

    Mas voltem logo que tenham o novo projeto! Aqui em Estremoz, comecei também um pequeno projeto mas ainda estou a estudar o monte, o solo,etc. a horta vai avançando e os meus amigos também vêm muitas vezes ajudar e fazer a sua própria Horta.
    Sei o difícil que é.
    Voltem logo que possam. Comprem terreno. A estado às vezes sede terrenos, embora as leis tenham mudado muito.
    Bem haja.

  • Cátia

    A vida é feita de escolhas! Sejam felizes e grata pela profunda partilha.

  • Casal Hortelão,

    A vossa decisão de pausa e amadurecimento é excelente. Quando podemos melhorar o caminho, não faz sentido permanecer na dificuldade, só porque sim.
    O projeto tem que ser revisto para ser viável.
    Torcemos há muito pelo vosso sucesso e somos gratas pelas vossas partilhas.
    Não desistam porque vocês são 5 estrelas.

    Come again.

    Sophia, Mary and Mom

  • Estava há tempos acompanhando a vossa jornada. Estou aqui no Brasil com um projeto similar, trabalhando sozinho com 0,5 hectares, produzindo em torno de 3 mil maços de folhosas em hidroponia ao mês, e iniciando os trabalhos de cultivo variado na terra (o outono chega em breve aqui) com variados cultivos e métodos mais orgânicos possíveis.
    Com muito pesar vejo a pausa que farão neste projeto, espero que retornem em breve e muito obrigado por compartilhar até mesmo essa experiência!

    Eduardo Brito
    Barra Bonita – São Paulo – Brasil

  • João Veras

    Amigos
    Foi com tristeza que vi este post
    Voçês foram fonte de inspiração para muitos como eu
    Obrigado por tudo e tenho a certeza que as nossas decisões nunca são fáceis
    é com grande alegria que posso misturar as minhas experiências/desilusões com as vossas.
    Sucessos para os vossos novos projetos
    PS:Como Também tenho uma horta se precisarem de “despachar” algum material, mandem-me e-mail
    João

  • António Clemente

    Olá

    Obrigado por tudo que partilharam, a vida faz-se de partilha e caminhando.
    Felicidades para voçês e familia que espero vá crescendo.
    Tudo de bom .

  • Uma fã

    Caro Casal Hortelão,

    É com grande pesar que leio este post, ainda que com esperança que seja o último, até um dia… Fui acompanhando as vossas aventuras silenciosamente, e a vossa perseverança era, e continua a ser, inspiradora.
    Sei o quão difícil é tomar uma decisão destas, pois tive uma experiência muito semelhante à vossa: ao fim de 5 anos de um projecto próprio, também fui vencida por uma profunda exaustão emocional. Respirem. Mas voltem. Já com um pouco de distanciamento, posso assegurar-vos que o bichinho nunca morre, e há um batalhão de fãs à vossa espera!

    Obrigada por estes anos de partilha (praticamente unilateral)… e até breve!

  • fernando

    Votos de felicidades.

  • Aprendi nesse post muito além do que aprendi em muitos que li ao longo do tempo sobre o tema. Gratidão.

  • Francisco

    Parabéns e tudo de bom para o futuro.

  • Humberto

    Relatos assim valem 10 vezes mais que relatos de “sucesso”, primeiro, porque são raros. Depois porque jogam iluminam o caminho, muitas vezes cheios de “buracos”, de quem segue a mesma trilha. Muito bacana!

  • Catarina

    Parabéns pelo vosso trabalho!
    Grata pela partilha!

  • Elisa Resina

    Tenho realmente muita pena.
    Enquanto estive em casa a construir o projeto da Horta à Medida (não podia estar mais de acordo com o “plano de negócios completo e sólido”), cheguei a propor-me como voluntária para trabalhar convosco. Não fosse a rotura de um gémeo e 2 meses de muletas (coisa que achei que em 3 dias estaria sarado…)teria tido com certeza o prazer de ter partilhado o trabalho convosco e viajado do Seixal à vossa horta.
    É precisamente a partilha da vossa experiência que tornava o vosso projeto especial e diferente.
    Que o futuro vos seja radioso, Casal Hortelão!

  • António Belo

    Caro Casal Hortelão Filipa e Telmo

    Contactei convosco uma vez, por telefone, para combinar um dia de voluntariado, em familia, na vossa horta. Não chegou a acontecer, mas ficou a vontade de o fazer. Obrigado pela vossa partilha do que foram estes 5 anos de projeto e pelo balanço que aqui nos deixam. Estou certo que seguirão um caminho de realização profissional, pessoal e familiar. Bem hajam.

  • José Ferraz

    Boa tarde Telmo e Filipa

    Com muita tristeza vejo o fim do vosso projeto, que fui seguindo com curiosidade, admiração pela audácia nalgumas opções e inspiração na vossa atitude.
    Fizeram diferença no universo online nacional ao nível da produção agrícola, expondo os vossos projectos, decisões, sucesso e dificuldades !

    Parabéns pela excelente compilação de aspectos fundamentais para o sucesso de um negócio!

    Inspirado por vocês, também tive várias vezes ideia de avançar para um projeto semelhante, mas a minha infância vivida com pais ligados a agricultura e a minha formação no sector levou-me a hesitar quando pensava nalgumas dificuldades sem solução no momento.

    Acredito que voltarão com um projecto mais estruturado e ajustado com as vossas expectativas.

    Um abraço,

    José Ferraz

  • Raquel

    É inacreditável. Apenas nos vimos uma vez no mercado de Cascais, logo no inicio e fico tão triste com esta vossa necessidade. Tenho acompanhado os vossos sucessos e as vossas lutas e é com muita pena que leio este vosso “ultimo” post. Li e compreendo bem as vossas decisões. Não é fácil. Não deve ser nada fácil. Mas para mim foi bom conhecer-vos, foi bom ajudar-vos naquilo que pude e é bom saber que tiveram a coragem desta decisão difícil. Muito obrigada por todas as partilhas,todas as receitas (ainda hoje faço o meu esparregado de acelgas que li no vosso blog). Sei que vou saber novamente do Casal Hortelão. sei que sim!! BOA SORTE e o meu Obrigada!! Raquel Pinheiro

  • maria joao

    Caro casal hortelão, obrigado pela vossa franqueza e muita sorte para os três.

  • Grato pela partilha! Tudo de bom para vocês!

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