Fotos e Histórias

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Telas, redes e mantas

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Este ano decidimos apostar em barreiras físicas para protecção das culturas – não só protecção contra pragas, mas também contra ervas e contra condições climatéricas menos favoráveis. Ao longo de três anos de actividade, com muita experimentação pelo caminho, chegámos à conclusão que alguma da produtividade perdida na nossa horta se devia por um lado a perdas por ataque de pragas, e por outro ao tempo perdido com limpeza de ervas daninhas que assim não era canalizado para a produção e manutenção apropriada das culturas. Agora óbvias para nós, as barreiras físicas serão uma forma eficaz de resolver estas duas questões, e ainda a questão das baixas temperaturas que as últimas primaveras têm trazido e que dificultam o desenvolvimento das culturas que gostam do calor.

Sempre que a temperatura sobe na primavera, as nossas couves são fortemente atacadas pela larva da mosca da couve (o “bago-de-arroz”) que destrói as raízes levando à morte das plantas. Também por este motivo desistimos de fazer nabo (outra brassica)  durante o verão. Assim, este ano apostámos em duas medidas de combate: por um lado cobrimos os camalhões com filme plástico preto (que simultaneamente evita o crescimento de ervas e dificulta a postura dos ovos  no solo húmido junto do pé da planta), e rede mosquiteira. A rede deverá manter longe não só a mosca da couve como as borboletas brancas que depois dão origem às lagartas da couve, e a áltica. No caso da áltica contudo, estamos a aguardar para ver o resultado uma vez que só conseguimos encontrar rede com uma malha de 1.5mm e a áltica tem tamanhos que varia dos 1.5mm a 3mm, sendo que os juvenis ainda poderão passar neste crivo.

O filme plástico preto estamos a colocar na maioria das culturas que têm um ciclo de vida relativamente longo e/ou que permitem colheitas sucessivas nas mesmas plantas – couves, tomateiros, beringelas, pimentos, melão, morangueiros. A rega nestas culturas é feita por fita de gota, que fica sob o filme.

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No caso das courgettes, e também dos tomateiros, beringelas e pimentos – culturas que querem calor – optámos por manta térmica imediatamente a seguir à transplantação. As courgettes são regadas por gota e ficaram cobertas até ao aparecimento das primeiras flores, altura em que as destapámos para permitir a polinização. Resultou muito bem e elas estão bonitas e produtivas – já estamos a colher belos exemplares destas plantas que são tão generosas!

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As alfaces, assim que foram para a terra, começaram a ser debicadas e tivemos de as cobrir com rede anti-pássaros para as proteger das perdizes que abundam nesta zona. Até ver está a resultar e as plantas estão a começar a recuperar. Também iremos colocar esta rede sobre os morangueiros quando começarem a produzir para as proteger dos melros. Esta é uma rede bastante flexível (conseguimos esticá-la até 4m metros e tapar em simultâneo 3-4 camalhões) mas tivemos de usar arcos de arame grosso (5mm)*  para a suster, e pedras para a segurar junto ao solo.

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*este arame compramos ao quilo numa loja de ferragens e fazemos arcos com 1m – esta espessura é suficiente para suportar as mantas térmicas ou as redes e dá-lhes resistência suficiente para serem espetadas na terra e manterem a forma.

Finalmente, a tela de chão tecida (ou geotêxtil). A nossa horta está dividida em vários blocos, segundo o grupo das culturas (solanáceas, brassicas, cucurbitaceas, quenopodiáceas, asteraceas, aliáceas, etc) e que iremos rodar entre si para garantir a rotatividade – falaremos mais em pormenor sobre as alterações que fizemos este ano num outro post. A questão é que nunca semeamos ou plantamos cada bloco de uma só vez. Assim, à medida que vamos preparando os camalhões, cobrimos os que não vamos plantar nas próximas semanas com a tela para conseguirmos três coisas: 1) evitar o crescimento das ervas daninhas (numa espécie de falsa sementeira às escuras, em que as ervas daninhas emergem com o calor, escuridão e humidade que se fazem sentir debaixo da tela para logo depois morrerem devido à ausência prolongada de luz); 2) matar as ervas daninhas já existentes pelo mesmo efeito referido atrás (a ausência de luz); e 3) ajudar a manter a humidade no solo para ser mais fácil de trabalhar quando se destapa.

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No final da época faremos o balanço destas medidas, mas até ver está a resultar – menos ervas e plantas bonitas e produtivas (neste momento ainda só temos o resultados das courgettes, mas a diferença para o ano passado é notória, com já mais de 10kg apanhados numa semana!).

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Ratos do campo

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Os ratos do campo são uma praga terrível…  são pequenos e andam sempre escondidos em túneis que escavam pela horta toda, e este inverno foram responsáveis pela perda de uma parte importante das nossas culturas.

Começámos a ver os seus efeitos quando apareceram as primeiras acelgas sem raiz. A acelga cria uma raíz grande como um bolbo,  que os ratos adoram roer – no inicio pareciam inofensivos e os estragos pareciam circunscritos a umas poucas acelgas, mas rapidamente deram cabo de 4 linhas de 30 metros, e logo depois invadiram a estufa e começaram a roer as cenouras e a raiz da salsa que forma uma raiz semelhante à cenoura, mas mais estreita e branca.

Para tentar controlar a praga, começámos a meter ratoeiras (as da foto) pela estufa, mas até ver ainda nenhum caiu nesta armadilha. Outra sugestão que estamos a seguir é dar-lhes aveia com gesso. A ideia é que o gesso lhes faça mal ao sistema digestivo e eles desapareçam da horta – temos pequenos pratinhos pela estufa com esta mistura e eles estão a comer, esperamos que comece a resultar depressa.

Aplicação de produtos fitofarmacêuticos em AB

[batata com calda bordalesa, a azul]

A agricultura biológica é um modo de produção de alimentos que favorece um conjunto de práticas prioritárias que minoram a necessidade de aplicação de produtos fitofarmacêuticos – proibindo alguns deles por completo e recorrendo a outros, em situações excepcionais, de base essencialmente vegetal e não de síntese química pura. Quando as práticas prioritárias não são suficientes e existe um perigo imediato de ataque às culturas (seja por doenças ou pragas conhecidas) existem alguns produtos auxiliares a que se pode recorrer e que estão homologados em Portugal pelo Ministério da Agricultura, Direcção Geral de Protecção das  Culturas (DGPC). Em caso de dúvida convém consultar o Guia dos Produtos Fitofarmacêuticos em Modo de Produção Biológico, disponível em formato pdf no site do MAMAOT e onde constam para cada tipo de cultura as doenças e pragas e respectivos produtos a aplicar, e respectivas doses autorizadas. Em todo o caso há uma grande diferença entre os produtos autorizados no modo de produção biológico e os utilizados em grande escala na produção convencional: para começar a grande escala e as grandes quantidades, que em AB normalmente não acontecem, por não haver necessidade, e que diminui o impacto de agentes químicos nos ecossistemas. Por outro lado temos a base vegetal, como já dissémos, que constitui a maior parte dos produtos autorizados (extractos vegetais). Geralmente actuam especificamente sobre determinados organismos e não sobre um espectro alargado – ou seja, não dizimam populações inteiras de auxiliares também. E outra característica destes produtos é muitas vezes actuarem sobre o ciclo reprodutivo das pragas, ou causando confusão sexual, ou ainda actuarem sobre uma fase muito especifica do ciclo (no caso do Bacillus thuringiensis, apenas as larvas das borboletas da couve são parasitadas por esta bactéria, não adiantando aplicar nos ovos ou na borboleta em si).

No nosso caso, as primeiras culturas que pusémos na terra – a couve portuguesa – sofreram um ataque feroz por parte da áltica, um escaravelho muito pequenino e que até é chamada de pulga por saltar, e que fura as folhas das plantas deixando-as completamente rendilhadas levando em alguns casos à morte. Nessa altura, e porque tínhamos seis linhas de 30 metros cada com couve optámos por recorrer ao ALIGN, que é um produto cujo princípio activo é a azadiractina, extraída da planta Azadirachta indica, e que funciona como insecticida – não mata a áltica mas interfere com o seu ciclo reprodutivo. Sendo assim, após a aplicação cobrimos as plantas com manta térmica, o que evitou recolonizações posteriores. No inverno a actividade desta praga diminui com o frio, e agora o que temos feito é transplantar as plantas e cobri-las imediatamente com a manta térmica. Desta forma diminuimos os ataques e também a aplicação de produtos, e tem resultado relativamente bem.

No campo da aplicação preventiva de produtos, fizemo-lo já este ano com a batata. Semeámos as batatas no final de fevereiro e como sabem este não foi um inverno típico – não choveu e esteve frio. No final de abril houve previsões de chuva em quantidade e por isso o perigo de ocorrência de míldio era elevado. Optámos então por fazer uma aplicação de calda bordalesa, que é um produto autorizado em agricultura biológica (no máximo até 6kg/ha/ano) e que é cobre na forma de sulfato de cobre e que se destina à prevenção de ataques por fungos como é o míldio. Fizemos uma segunda aplicação em meados de maio um dia antes de nova chuvada.

Ao que consta, os esporos de míldio encontram-se no solo em estado dormente até cairem as primeiras chuvas e os activarem e projectarem com o impacto para cima, para a parte inferior das folhas das plantas, que é onde se detectam os primeiros sintomas de ataque. Quando fazemos uma aplicação de calda bordalesa (de cor azul por causa do cobre e que depois fica bem vísivel a cobrir as folhas da planta) criamos uma capa protectora, e por isso é que a aplicação convém ser feita um ou dois dias antes das primeiras chuvas – para o produto secar nas folhas e não haver escorrências para o solo onde causa fitotoxicidade. Assumindo que se foi a tempo de evitar a primeira infecção com a primeira chuva, e sabendo que a persistência da calda bordalesa na planta é de cerca de 8 dias, isso significa que 8-9 dias depois da aplicação se ainda chover pode ocorrer uma infecção. Contudo, os primeiros sintomas só surgem após 10-15 dias o que significa na prática que mesmo fazendo a primeira aplicação antes das primeiras chuvas ainda assim a segunda fase de infecção ainda é possível – obrigada Raquel pelas explicações técnicas! percebi bem?. As nossas batatas parecem ter fintado as infecções, e ao que parece as primeiras são as mais perigosas, e estão grandes e saudáveis. Até já tirámos algumas batatas para provar e são macias e sem doenças. Não sabemos se terá sido por isso, mas plantámos alho no meio das batatas (um dente de alho de 2 em 2 metros nas linhas) e também não tivemos escaravelho da batata nem traça.

Quanto aos afídeos, na estufa e logo ao início tivémos um forte ataque na rúcula, mas pensamos ter sido por excesso de calor e humidade porque ao ar livre não estamos a ter esse problema. E tivemos uma invasão da horta por parte de joaninhas e suas larvas vorazes (ver na foto) que num ápice limparam os afídeos que já estavam a atacar em força as ervilhas e as favas, por isso o sistema parece estar a funcionar bem, as consociações estão a resultar (por exemplo a cenoura junto da cebola evitou completamente o ataque por mosca da cenoura) e não está a precisar de grandes intervenções por parte de produtos fitofarmacêuticos.

[larva de joaninha a comer um afideo]

Mini-tuneis

Já há algum tempo que andávamos a ponderar em arranjar uma solução para cobrir as linhas de plantas que temos na terra. Usar a manta térmica por cima das culturas tem inúmeras vantagens, mantém a temperatura da planta e do solo junto à planta, protege do mau tempo e de algumas pragas, e permite que a planta respire e a passagem da água da rega ou da chuva (o que tem acontecido nas últimas semanas).

Tínhamos feito uma experiência com canas mas não correu muito bem, partiram-se com alguma facilidade e rasgaram a manta com ajuda do vento.

Há uns dias a trás fomos visitados por um colega produtor que nos deu a dica: arame de 5mm que vem em rolo e nem é preciso desenrolar, basta ir cortando com a medida que se quer que ele já está curvo. Os nossos fomos cortando a 3/4 de volta e dão para um camalhão de cerca de um metro de largura, e coberto com manta térmica com 1,60m.

Larvas e lagartas nocivas


Depois da áltica, as lagartas… e ainda mais recentemente larvas chamadas “bicho arroz”. Por parecerem bagos de arroz, nas raízes. As crucíferas são muito propensas a ataques por animais que gostam de as comer. As lagartas são de lepidópteros, vulgarmente conhecidos por borboletas. Quem cultiva couves avista com frequência borboletas brancas com uma pinta preta na parte inferior das asas a sobrevoá-las. A que vemos na segunda imagem é da espécie Pieris rapae L. (na primeira foto podem ver-se os seus excrementos), e encontrei uma ou duas por planta nas couves chinesas e na couve lombarda. Na terceira e quarta fotos são lagartas da espécie Pieris brassicae L., que normalmente se encontram “em colónias” de 25 a 50 animais, depois de sairem dos ovos amarelos (que se parecem bastante com ovos de auxiliares!) e que costumam manter-se naquela planta até a devorarem toda, sendo raro migrarem para outras plantas. Estas encontrei-as na couve portuguesa. Até agora tenho feito um controlo manual, retirando e esmagando as que encontro, mas possivelmente terei de recorrer a uma aplicação de Bacillus thuringiensis, uma bactéria que é indicada para o controlo de lagartas em estado juvenil em modo de produção biológico. Apesar de já não serem propriamente juvenis as lagartas que encontrei, poderão existir novos ovos e novas gerações que convém controlar.

Como o tempo tem estado quente (até esta semana, porque na verdade a temperatura agora desceu bastante e começou a chover) estiveram criadas as condições ideais para surgirem também as pequenas larvas em forma de bago de arroz, que se alojam no solo junto às raízes e que as devoram, acabando por matar a planta. Detectámos estas larvas da mosca da couve (Delia radicum L.) apenas na couve chinesa, e apenas quando as plantas já perfeitamente desenvolvidas e com aspecto saudável começaram a amarelecer e a tombar por já não terem raízes. Lamentavelmente já detectámos esta praga em estádio avançado e como tal vamos fazer um tratamento, junto ao solo/raízes das plantas, com um insecticida regulador de crescimento de origem vegetal (óleo de neem), cuja substância activa é a azadiractina, a mesma indicada para o combate à áltica e que já tínhamos em stock. O ideal teria sido evitar a postura dos ovos, por exemplo cobrindo as plantas recém transplantadas com manta térmica ou com rede de malha fina. A próxima cultura a instalar neste local não poderão ser couves, uma vez que esta praga irá repousar durante o inverno no solo em estado de pupa, para emergir na primavera entre março e maio.

Pragas e auxiliares

Nem tudo são rosas no doishectaresemeio (ironia em destaque, já que aqui costumava haver uma exploração de rosas). Tínhamos uma leve esperança que as primeiras culturas não fossem fortemente visitadas por pragas uma vez que este era um terreno abandonado, onde não era feita agricultura e onde em princípio não estariam latentes vírus ou doenças específicas dalgumas das plantas que vamos produzir. Mas a fauna apareceu, como não poderia deixar de ser. A terceira semana da germinação foi crítica – até aí foi só regar de manhã e à noite e arejar, e as plantas cresciam a cada dia, fortes e saudáveis. Depois começaram a aparecer visitantes, uns “bons” outros mais indesejáveis. As couves portuguesas começaram a ficar rendilhadas por áltica (falaremos delas em pormenor noutro post), um gafanhoto verde quis ver o que se estava a passar, uma ou outra mosquinha branca (prontamente eliminadas entre polegar e o indicador), afídeos (aaahhh… afídeos é que não), e outros insectos não problemáticos, e até úteis.

Até ver, os que estão ilustrados nas fotos não fizeram qualquer estrago pelo que admitimos serem auxiliares, ou pelo menos indiferentes. Quanto aos afídeos e às álticas… Os estragos estão a ser visíveis nas couves.

A boa notícia é que os auxiliares começaram a aparecer e a fazer o seu trabalho – larvas predadoras e insectos parasitóides começam lentamente a entrar em acção, mas não sabemos se vai ser suficiente:

Braconideos do genero Aphidius a parasitar afideos
Para além dos produtos homologados para aplicação em agricultura biológica, temos outras soluções de produção caseira que queremos experimentar e que nos foram sugeridas por quem nos está a dar apoio técnico.
Deixamos aqui a receita para chorume de fetos – que é um repelente de insectos que podemos aplicar sem intervalos de segurança e que serve como acção preventiva:

 

1 kg de fetos frescos
10 L de água (de preferência da chuva)
Colocar os fetos num recipiente com 10L de água e deixar ficar cerca de 15 dias (se necessário colocar uma pedra para manter os fetos debaixo de água). Após esse período retirar as plantas e guardar o líquido/chorume. Para aplicar, diluir a 10% – ou seja, na prática 1kg de fetos dá para 100L de repelente.