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Couves sob ataque! – pequeno manual de controlo

Chegada a altura de plantar as couves (que este ano foi em setembro) já sabemos que um dos maiores problemas vai ser o controlo das lagartas. Se o tempo estiver quente, é a áltica ou bago de arroz com que temos de nos preocupar, mas com o tempo a arrefecer no outono e a chuva a começar a cair com regularidade, é importante arranjar estratégias para interrompermos o ciclo destas pragas da cultura. Esta foi a segunda campanha de couves que acompanhamos durante o inverno e das duas vezes detetámos apenas dois tipos de lagartas: umas totalmente verdes (Pieris rapae) e outras “peludas” e de cor preta e amarela (Pieris brassicae). Ambas vêm de ovos colocados nas folhas das couves por borboletas brancas, com 3 a 5 cm de asa, mas que são de espécies diferentes (sendo as das lagartas verdes mais pequenas). Quando se começam a avistar estas borboletas a sobrevoar a horta é tempo de começar a ficar alerta – os ovos de cor amarela são mais difíceis de detetar porque são normalmente postos na página inferior das folhas, mas se for possível eliminar os ovos antes de as lagartas eclodirem, tanto melhor.

Na nossa horta as lagartas da espécie Pieris rapae são sempre as primeiras a aparecer (figura 1), e gostam especialmente das couves chinesas, mas também da lombarda e portuguesa. Os dejetos delas – verdes como as folhas das nossas couves! – são fáceis de identificar (figura 2) e à primeira deteção deve procurar a lagarta e removê-la, e continuar a vistoria às restantes plantas. Estas lagartas verdes mimetizam muito bem as plantas onde estão e por isso são por vezes difíceis de localizar, podendo acontecer estarmos a olhar para elas e não as vermos. A vantagem é que geralmente só há uma destas lagartas por planta, e raramente mais que duas. Se detetar dejetos e não vir logo a lagarta, a nossa sugestão é perder alguns minutos a inspecionar cada folha e cada veio com atenção, porque certamente vai dar com ela e evitar estragos futuros.

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No caso das lagartas da espécie Pieris brassicae, os ovos são postos geralmente em grupos grandes (podem ser mais de 50) e por isso quando se avista uma lagarta destas ela não vai estar só – são de certeza várias, e por isso ao encontrar uma deve sempre inspecionar-se o resto da planta cuidadosamente, em particular a página inferior das folhas (figura 3). As lagartas devem ser removidas e esmagadas, todas sem excepção – uma lagarta esquecida durantes uns dias numa planta é suficiente para causar estragos que já não permitem a sua venda, por exemplo. Se a planta for jovem e as lagartas se encontrarem nas primeiras folhas não haverá problema em esmagá-las sobre a própria folha, mas se a planta já tiver atingido a maturação e estiver pronta a colher é preferível esmagá-las entre os dedos depois de as remover para não danificar as folhas nem deixar manchas ou resíduos.

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Este outono e inverno estão a ser particularmente chuvosos e húmidos o que favoreceu a atividade de uma série de pragas nas nossas couves que se viram durante algum tempo sob um ataque serrado que quase nos levou ao desespero (figuras 5 a 8) – lagartas da espécie Pieris brassicae, caracóis, lagartas da espécie Pieris rapae e este ano também as perdizes (figuras 9 e 10).

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Em relação a lagartas e caracóis, a estratégia foi simples – controlo manual. Todos os dias, a primeira tarefa ao chegar à horta, pelas 8h30, foi fazer a vistoria a cerca de 5 linhas de 40m de couve, e mais duas de brocolos – uma inspeção rigorosa e que levava cerca de 40 minutos e deu muitas dores de costas, mas que compensou. Ao fim de 3-4 semanas conseguimos interromper de alguma forma o ciclo das borboletas e passámos a encontrar lagartas apenas pontualmente a partir daí.

O ano passado adquirimos Bacillus thuringiensis para aplicação sobre as fases muito iniciais das lagartas, após a eclosão do ovo, mas nunca chegámos a utilizar. Esta bactéria que ataca as lagartas jovens tem de ser aplicada sobre as plantas secas, o que na prática nunca se mostrou viável, seja por causa da chuva ou do orvalho matinal intenso.

Em relação às perdizes foi mais complicado. Como no ano passado não tivemos problemas com elas nunca pensámos que poderiam causar grande estrago. Mas estávamos enganados – as perdizes são aves bastante territoriais, e este ano houve um grande número delas que escaparam à época de caça e que se habituaram à nossa horta. As couves (cerca de 1/3) foram debicadas e destruídas sem pena nenhuma. Ainda tentámos cobri-las com manta térmica, mas estando numa zona ventosa as couves acabavam por estar mais tempo expostas que cobertas.

Nota: identificámos a presença de perdizes não apenas por vermos o bando levantar vôo quando chegávamos à horta, mas também pelos dejetos delas no meio das couves (figura 9). Os dejetos de ave – tanto os sólidos como os líquidos – são expelidos pela mesma abertura (a cloaca) e é sempre visível uma camada branca, tornando fácil distinguir os dejectos de aves dos de outros animais.

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Por agora conseguimos controlar estas aves instalando um espantalho (o Benjamim!) no meio da horta, e tentanto aumentar a nossa permanência diária lá, para as perdizes se habituarem a ver lá gente a ocupar o território que achavem ser delas. Mas é possivel que elas desenvolvam habituação e voltem na primavera…

Desafios

Quase um ano passado desde que entrámos em actividade, não podemos ainda dizer que somos agricultores e muito menos especialistas. Mas se deitar sementes à terra, vê-las crescer para se tornarem plantas saudáveis, colhê-las e vendê-las não é ser agricultor, pelo menos já é alguma coisa. Temos aprendido imenso, e a maior aprendizagem sem dúvida que não está nos livros, está na prática. Desde que agarrámos este desafio já fomos contabilistas, canalizadores, electricistas, designers, vendedores, conversadores profissionais com os nossos clientes, biólogos, entomologistas, realizadores de filmes, fotógrafos.

As pragas estão a voltar à medida que o tempo aquece: áltica, borboletas das couves, bago de arroz… coelhos! mas estamos a observar também vários auxiliares como larvas de joaninhas, aves insectívoras, opiliões, dípteros. As flores das couves e dos trevos e luzernas estão a atrair centenas de abelhas, abelhões e bombos, e acreditamos que a nossa horta está a tornar-se uma verdadeira horta biológica e a começar a gerir-se com um pouco da nossa ajuda. As ervas – apesar de benéficas para a adubação verde como as luzernas – cobrem todos os cantos que não estão a ser utilizados e parecem estar prestes a engolir a nossa produção se não as controlarmos.

Mas actualmente o nosso maior desafio está a ser conseguir manter uma produção contínua de vários produtos. Ainda existem muitos aspectos importantes que não estamos a conseguir prever, mas esperamos que seja algo que vem com a experiência e afinal ainda não completámos um ano agrícola e só apanhámos a campanha de outono inverno.

Os diferentes tempos de produção que as culturas têm, nas diferentes alturas do ano (no inverno desenvolve-se tudo tão lentamente!), e os diferentes ritmos de procura por parte dos nossos clientes, provocam-nos indisponibilidade de alguns produtos, que depois não conseguimos repor com a agilidade que gostaríamos.

Bem, estamos sempre a aprender e a tentar superar os desafios, e já começámos a fazer sementeiras regulares de vários produtos, e pelo menos com os espinafres achamos que já acertamos com o ritmo ;)

Larvas e lagartas nocivas


Depois da áltica, as lagartas… e ainda mais recentemente larvas chamadas “bicho arroz”. Por parecerem bagos de arroz, nas raízes. As crucíferas são muito propensas a ataques por animais que gostam de as comer. As lagartas são de lepidópteros, vulgarmente conhecidos por borboletas. Quem cultiva couves avista com frequência borboletas brancas com uma pinta preta na parte inferior das asas a sobrevoá-las. A que vemos na segunda imagem é da espécie Pieris rapae L. (na primeira foto podem ver-se os seus excrementos), e encontrei uma ou duas por planta nas couves chinesas e na couve lombarda. Na terceira e quarta fotos são lagartas da espécie Pieris brassicae L., que normalmente se encontram “em colónias” de 25 a 50 animais, depois de sairem dos ovos amarelos (que se parecem bastante com ovos de auxiliares!) e que costumam manter-se naquela planta até a devorarem toda, sendo raro migrarem para outras plantas. Estas encontrei-as na couve portuguesa. Até agora tenho feito um controlo manual, retirando e esmagando as que encontro, mas possivelmente terei de recorrer a uma aplicação de Bacillus thuringiensis, uma bactéria que é indicada para o controlo de lagartas em estado juvenil em modo de produção biológico. Apesar de já não serem propriamente juvenis as lagartas que encontrei, poderão existir novos ovos e novas gerações que convém controlar.

Como o tempo tem estado quente (até esta semana, porque na verdade a temperatura agora desceu bastante e começou a chover) estiveram criadas as condições ideais para surgirem também as pequenas larvas em forma de bago de arroz, que se alojam no solo junto às raízes e que as devoram, acabando por matar a planta. Detectámos estas larvas da mosca da couve (Delia radicum L.) apenas na couve chinesa, e apenas quando as plantas já perfeitamente desenvolvidas e com aspecto saudável começaram a amarelecer e a tombar por já não terem raízes. Lamentavelmente já detectámos esta praga em estádio avançado e como tal vamos fazer um tratamento, junto ao solo/raízes das plantas, com um insecticida regulador de crescimento de origem vegetal (óleo de neem), cuja substância activa é a azadiractina, a mesma indicada para o combate à áltica e que já tínhamos em stock. O ideal teria sido evitar a postura dos ovos, por exemplo cobrindo as plantas recém transplantadas com manta térmica ou com rede de malha fina. A próxima cultura a instalar neste local não poderão ser couves, uma vez que esta praga irá repousar durante o inverno no solo em estado de pupa, para emergir na primavera entre março e maio.