Arquivo

  • 2016 (1)
  • 2015 (4)
  • 2014 (8)
  • 2013 (12)
  • 2012 (22)
  • 2011 (35)
  • 2010 (10)
  • 2009 (1)

Telas, redes e mantas

IMG1714

Este ano decidimos apostar em barreiras físicas para protecção das culturas – não só protecção contra pragas, mas também contra ervas e contra condições climatéricas menos favoráveis. Ao longo de três anos de actividade, com muita experimentação pelo caminho, chegámos à conclusão que alguma da produtividade perdida na nossa horta se devia por um lado a perdas por ataque de pragas, e por outro ao tempo perdido com limpeza de ervas daninhas que assim não era canalizado para a produção e manutenção apropriada das culturas. Agora óbvias para nós, as barreiras físicas serão uma forma eficaz de resolver estas duas questões, e ainda a questão das baixas temperaturas que as últimas primaveras têm trazido e que dificultam o desenvolvimento das culturas que gostam do calor.

Sempre que a temperatura sobe na primavera, as nossas couves são fortemente atacadas pela larva da mosca da couve (o “bago-de-arroz”) que destrói as raízes levando à morte das plantas. Também por este motivo desistimos de fazer nabo (outra brassica)  durante o verão. Assim, este ano apostámos em duas medidas de combate: por um lado cobrimos os camalhões com filme plástico preto (que simultaneamente evita o crescimento de ervas e dificulta a postura dos ovos  no solo húmido junto do pé da planta), e rede mosquiteira. A rede deverá manter longe não só a mosca da couve como as borboletas brancas que depois dão origem às lagartas da couve, e a áltica. No caso da áltica contudo, estamos a aguardar para ver o resultado uma vez que só conseguimos encontrar rede com uma malha de 1.5mm e a áltica tem tamanhos que varia dos 1.5mm a 3mm, sendo que os juvenis ainda poderão passar neste crivo.

O filme plástico preto estamos a colocar na maioria das culturas que têm um ciclo de vida relativamente longo e/ou que permitem colheitas sucessivas nas mesmas plantas – couves, tomateiros, beringelas, pimentos, melão, morangueiros. A rega nestas culturas é feita por fita de gota, que fica sob o filme.

mantas_e_redes

No caso das courgettes, e também dos tomateiros, beringelas e pimentos – culturas que querem calor – optámos por manta térmica imediatamente a seguir à transplantação. As courgettes são regadas por gota e ficaram cobertas até ao aparecimento das primeiras flores, altura em que as destapámos para permitir a polinização. Resultou muito bem e elas estão bonitas e produtivas – já estamos a colher belos exemplares destas plantas que são tão generosas!

mantas_e_redes-5

As alfaces, assim que foram para a terra, começaram a ser debicadas e tivemos de as cobrir com rede anti-pássaros para as proteger das perdizes que abundam nesta zona. Até ver está a resultar e as plantas estão a começar a recuperar. Também iremos colocar esta rede sobre os morangueiros quando começarem a produzir para as proteger dos melros. Esta é uma rede bastante flexível (conseguimos esticá-la até 4m metros e tapar em simultâneo 3-4 camalhões) mas tivemos de usar arcos de arame grosso (5mm)*  para a suster, e pedras para a segurar junto ao solo.

mantas_e_redes-6

*este arame compramos ao quilo numa loja de ferragens e fazemos arcos com 1m – esta espessura é suficiente para suportar as mantas térmicas ou as redes e dá-lhes resistência suficiente para serem espetadas na terra e manterem a forma.

Finalmente, a tela de chão tecida (ou geotêxtil). A nossa horta está dividida em vários blocos, segundo o grupo das culturas (solanáceas, brassicas, cucurbitaceas, quenopodiáceas, asteraceas, aliáceas, etc) e que iremos rodar entre si para garantir a rotatividade – falaremos mais em pormenor sobre as alterações que fizemos este ano num outro post. A questão é que nunca semeamos ou plantamos cada bloco de uma só vez. Assim, à medida que vamos preparando os camalhões, cobrimos os que não vamos plantar nas próximas semanas com a tela para conseguirmos três coisas: 1) evitar o crescimento das ervas daninhas (numa espécie de falsa sementeira às escuras, em que as ervas daninhas emergem com o calor, escuridão e humidade que se fazem sentir debaixo da tela para logo depois morrerem devido à ausência prolongada de luz); 2) matar as ervas daninhas já existentes pelo mesmo efeito referido atrás (a ausência de luz); e 3) ajudar a manter a humidade no solo para ser mais fácil de trabalhar quando se destapa.

mantas_e_redes-2

mantas_e_redes-4

No final da época faremos o balanço destas medidas, mas até ver está a resultar – menos ervas e plantas bonitas e produtivas (neste momento ainda só temos o resultados das courgettes, mas a diferença para o ano passado é notória, com já mais de 10kg apanhados numa semana!).

     IMG_20140601_094725  IMG1709

Couves sob ataque! – pequeno manual de controlo

Chegada a altura de plantar as couves (que este ano foi em setembro) já sabemos que um dos maiores problemas vai ser o controlo das lagartas. Se o tempo estiver quente, é a áltica ou bago de arroz com que temos de nos preocupar, mas com o tempo a arrefecer no outono e a chuva a começar a cair com regularidade, é importante arranjar estratégias para interrompermos o ciclo destas pragas da cultura. Esta foi a segunda campanha de couves que acompanhamos durante o inverno e das duas vezes detetámos apenas dois tipos de lagartas: umas totalmente verdes (Pieris rapae) e outras “peludas” e de cor preta e amarela (Pieris brassicae). Ambas vêm de ovos colocados nas folhas das couves por borboletas brancas, com 3 a 5 cm de asa, mas que são de espécies diferentes (sendo as das lagartas verdes mais pequenas). Quando se começam a avistar estas borboletas a sobrevoar a horta é tempo de começar a ficar alerta – os ovos de cor amarela são mais difíceis de detetar porque são normalmente postos na página inferior das folhas, mas se for possível eliminar os ovos antes de as lagartas eclodirem, tanto melhor.

Na nossa horta as lagartas da espécie Pieris rapae são sempre as primeiras a aparecer (figura 1), e gostam especialmente das couves chinesas, mas também da lombarda e portuguesa. Os dejetos delas – verdes como as folhas das nossas couves! – são fáceis de identificar (figura 2) e à primeira deteção deve procurar a lagarta e removê-la, e continuar a vistoria às restantes plantas. Estas lagartas verdes mimetizam muito bem as plantas onde estão e por isso são por vezes difíceis de localizar, podendo acontecer estarmos a olhar para elas e não as vermos. A vantagem é que geralmente só há uma destas lagartas por planta, e raramente mais que duas. Se detetar dejetos e não vir logo a lagarta, a nossa sugestão é perder alguns minutos a inspecionar cada folha e cada veio com atenção, porque certamente vai dar com ela e evitar estragos futuros.

Untitled-5

No caso das lagartas da espécie Pieris brassicae, os ovos são postos geralmente em grupos grandes (podem ser mais de 50) e por isso quando se avista uma lagarta destas ela não vai estar só – são de certeza várias, e por isso ao encontrar uma deve sempre inspecionar-se o resto da planta cuidadosamente, em particular a página inferior das folhas (figura 3). As lagartas devem ser removidas e esmagadas, todas sem excepção – uma lagarta esquecida durantes uns dias numa planta é suficiente para causar estragos que já não permitem a sua venda, por exemplo. Se a planta for jovem e as lagartas se encontrarem nas primeiras folhas não haverá problema em esmagá-las sobre a própria folha, mas se a planta já tiver atingido a maturação e estiver pronta a colher é preferível esmagá-las entre os dedos depois de as remover para não danificar as folhas nem deixar manchas ou resíduos.

couves_sob_ataque_3_4

Este outono e inverno estão a ser particularmente chuvosos e húmidos o que favoreceu a atividade de uma série de pragas nas nossas couves que se viram durante algum tempo sob um ataque serrado que quase nos levou ao desespero (figuras 5 a 8) – lagartas da espécie Pieris brassicae, caracóis, lagartas da espécie Pieris rapae e este ano também as perdizes (figuras 9 e 10).

Untitled-3

Em relação a lagartas e caracóis, a estratégia foi simples – controlo manual. Todos os dias, a primeira tarefa ao chegar à horta, pelas 8h30, foi fazer a vistoria a cerca de 5 linhas de 40m de couve, e mais duas de brocolos – uma inspeção rigorosa e que levava cerca de 40 minutos e deu muitas dores de costas, mas que compensou. Ao fim de 3-4 semanas conseguimos interromper de alguma forma o ciclo das borboletas e passámos a encontrar lagartas apenas pontualmente a partir daí.

O ano passado adquirimos Bacillus thuringiensis para aplicação sobre as fases muito iniciais das lagartas, após a eclosão do ovo, mas nunca chegámos a utilizar. Esta bactéria que ataca as lagartas jovens tem de ser aplicada sobre as plantas secas, o que na prática nunca se mostrou viável, seja por causa da chuva ou do orvalho matinal intenso.

Em relação às perdizes foi mais complicado. Como no ano passado não tivemos problemas com elas nunca pensámos que poderiam causar grande estrago. Mas estávamos enganados – as perdizes são aves bastante territoriais, e este ano houve um grande número delas que escaparam à época de caça e que se habituaram à nossa horta. As couves (cerca de 1/3) foram debicadas e destruídas sem pena nenhuma. Ainda tentámos cobri-las com manta térmica, mas estando numa zona ventosa as couves acabavam por estar mais tempo expostas que cobertas.

Nota: identificámos a presença de perdizes não apenas por vermos o bando levantar vôo quando chegávamos à horta, mas também pelos dejetos delas no meio das couves (figura 9). Os dejetos de ave – tanto os sólidos como os líquidos – são expelidos pela mesma abertura (a cloaca) e é sempre visível uma camada branca, tornando fácil distinguir os dejectos de aves dos de outros animais.

Untitled-2

Por agora conseguimos controlar estas aves instalando um espantalho (o Benjamim!) no meio da horta, e tentanto aumentar a nossa permanência diária lá, para as perdizes se habituarem a ver lá gente a ocupar o território que achavem ser delas. Mas é possivel que elas desenvolvam habituação e voltem na primavera…

Larvas e lagartas nocivas


Depois da áltica, as lagartas… e ainda mais recentemente larvas chamadas “bicho arroz”. Por parecerem bagos de arroz, nas raízes. As crucíferas são muito propensas a ataques por animais que gostam de as comer. As lagartas são de lepidópteros, vulgarmente conhecidos por borboletas. Quem cultiva couves avista com frequência borboletas brancas com uma pinta preta na parte inferior das asas a sobrevoá-las. A que vemos na segunda imagem é da espécie Pieris rapae L. (na primeira foto podem ver-se os seus excrementos), e encontrei uma ou duas por planta nas couves chinesas e na couve lombarda. Na terceira e quarta fotos são lagartas da espécie Pieris brassicae L., que normalmente se encontram “em colónias” de 25 a 50 animais, depois de sairem dos ovos amarelos (que se parecem bastante com ovos de auxiliares!) e que costumam manter-se naquela planta até a devorarem toda, sendo raro migrarem para outras plantas. Estas encontrei-as na couve portuguesa. Até agora tenho feito um controlo manual, retirando e esmagando as que encontro, mas possivelmente terei de recorrer a uma aplicação de Bacillus thuringiensis, uma bactéria que é indicada para o controlo de lagartas em estado juvenil em modo de produção biológico. Apesar de já não serem propriamente juvenis as lagartas que encontrei, poderão existir novos ovos e novas gerações que convém controlar.

Como o tempo tem estado quente (até esta semana, porque na verdade a temperatura agora desceu bastante e começou a chover) estiveram criadas as condições ideais para surgirem também as pequenas larvas em forma de bago de arroz, que se alojam no solo junto às raízes e que as devoram, acabando por matar a planta. Detectámos estas larvas da mosca da couve (Delia radicum L.) apenas na couve chinesa, e apenas quando as plantas já perfeitamente desenvolvidas e com aspecto saudável começaram a amarelecer e a tombar por já não terem raízes. Lamentavelmente já detectámos esta praga em estádio avançado e como tal vamos fazer um tratamento, junto ao solo/raízes das plantas, com um insecticida regulador de crescimento de origem vegetal (óleo de neem), cuja substância activa é a azadiractina, a mesma indicada para o combate à áltica e que já tínhamos em stock. O ideal teria sido evitar a postura dos ovos, por exemplo cobrindo as plantas recém transplantadas com manta térmica ou com rede de malha fina. A próxima cultura a instalar neste local não poderão ser couves, uma vez que esta praga irá repousar durante o inverno no solo em estado de pupa, para emergir na primavera entre março e maio.