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culturas resistentes

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Após cerca de três meses de ausência da horta, escusado será de dizer que as ervas cresceram à vontade, estão grandes e por todo o lado, parece uma selva em miniatura. É uma visão que nos deixa um pouco desanimados, quando comparamos com as imagens da nossa horta de verão, tão organizada e produtiva.

Mas quando olhamos mais de perto, vemos que esta mistura de verdes e castanhos, esconde os seus segredos. Algumas culturas, que não chegaram a ser colhidas por não estarem prontas no inicio de Outubro, resistiram até agora, apesar de não terem sido cuidadas, de terem que competir com um mar de ervas daninhas, e ataques de lagartas, caracóis e lesmas. Agora em Janeiro, voltámos a comer vegetais da nossa horta, fazemos sopas de alho francês com funcho e aipo de raiz, couves de bruxelas salteadas, espargados de acelgas e uns chucrutes de couve roxa.

Na fase em que estamos, comermos vegetais nossos, que continuam a ser os melhores que já provámos, dá uma motivação extra.

Couves sob ataque! – pequeno manual de controlo

Chegada a altura de plantar as couves (que este ano foi em setembro) já sabemos que um dos maiores problemas vai ser o controlo das lagartas. Se o tempo estiver quente, é a áltica ou bago de arroz com que temos de nos preocupar, mas com o tempo a arrefecer no outono e a chuva a começar a cair com regularidade, é importante arranjar estratégias para interrompermos o ciclo destas pragas da cultura. Esta foi a segunda campanha de couves que acompanhamos durante o inverno e das duas vezes detetámos apenas dois tipos de lagartas: umas totalmente verdes (Pieris rapae) e outras “peludas” e de cor preta e amarela (Pieris brassicae). Ambas vêm de ovos colocados nas folhas das couves por borboletas brancas, com 3 a 5 cm de asa, mas que são de espécies diferentes (sendo as das lagartas verdes mais pequenas). Quando se começam a avistar estas borboletas a sobrevoar a horta é tempo de começar a ficar alerta – os ovos de cor amarela são mais difíceis de detetar porque são normalmente postos na página inferior das folhas, mas se for possível eliminar os ovos antes de as lagartas eclodirem, tanto melhor.

Na nossa horta as lagartas da espécie Pieris rapae são sempre as primeiras a aparecer (figura 1), e gostam especialmente das couves chinesas, mas também da lombarda e portuguesa. Os dejetos delas – verdes como as folhas das nossas couves! – são fáceis de identificar (figura 2) e à primeira deteção deve procurar a lagarta e removê-la, e continuar a vistoria às restantes plantas. Estas lagartas verdes mimetizam muito bem as plantas onde estão e por isso são por vezes difíceis de localizar, podendo acontecer estarmos a olhar para elas e não as vermos. A vantagem é que geralmente só há uma destas lagartas por planta, e raramente mais que duas. Se detetar dejetos e não vir logo a lagarta, a nossa sugestão é perder alguns minutos a inspecionar cada folha e cada veio com atenção, porque certamente vai dar com ela e evitar estragos futuros.

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No caso das lagartas da espécie Pieris brassicae, os ovos são postos geralmente em grupos grandes (podem ser mais de 50) e por isso quando se avista uma lagarta destas ela não vai estar só – são de certeza várias, e por isso ao encontrar uma deve sempre inspecionar-se o resto da planta cuidadosamente, em particular a página inferior das folhas (figura 3). As lagartas devem ser removidas e esmagadas, todas sem excepção – uma lagarta esquecida durantes uns dias numa planta é suficiente para causar estragos que já não permitem a sua venda, por exemplo. Se a planta for jovem e as lagartas se encontrarem nas primeiras folhas não haverá problema em esmagá-las sobre a própria folha, mas se a planta já tiver atingido a maturação e estiver pronta a colher é preferível esmagá-las entre os dedos depois de as remover para não danificar as folhas nem deixar manchas ou resíduos.

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Este outono e inverno estão a ser particularmente chuvosos e húmidos o que favoreceu a atividade de uma série de pragas nas nossas couves que se viram durante algum tempo sob um ataque serrado que quase nos levou ao desespero (figuras 5 a 8) – lagartas da espécie Pieris brassicae, caracóis, lagartas da espécie Pieris rapae e este ano também as perdizes (figuras 9 e 10).

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Em relação a lagartas e caracóis, a estratégia foi simples – controlo manual. Todos os dias, a primeira tarefa ao chegar à horta, pelas 8h30, foi fazer a vistoria a cerca de 5 linhas de 40m de couve, e mais duas de brocolos – uma inspeção rigorosa e que levava cerca de 40 minutos e deu muitas dores de costas, mas que compensou. Ao fim de 3-4 semanas conseguimos interromper de alguma forma o ciclo das borboletas e passámos a encontrar lagartas apenas pontualmente a partir daí.

O ano passado adquirimos Bacillus thuringiensis para aplicação sobre as fases muito iniciais das lagartas, após a eclosão do ovo, mas nunca chegámos a utilizar. Esta bactéria que ataca as lagartas jovens tem de ser aplicada sobre as plantas secas, o que na prática nunca se mostrou viável, seja por causa da chuva ou do orvalho matinal intenso.

Em relação às perdizes foi mais complicado. Como no ano passado não tivemos problemas com elas nunca pensámos que poderiam causar grande estrago. Mas estávamos enganados – as perdizes são aves bastante territoriais, e este ano houve um grande número delas que escaparam à época de caça e que se habituaram à nossa horta. As couves (cerca de 1/3) foram debicadas e destruídas sem pena nenhuma. Ainda tentámos cobri-las com manta térmica, mas estando numa zona ventosa as couves acabavam por estar mais tempo expostas que cobertas.

Nota: identificámos a presença de perdizes não apenas por vermos o bando levantar vôo quando chegávamos à horta, mas também pelos dejetos delas no meio das couves (figura 9). Os dejetos de ave – tanto os sólidos como os líquidos – são expelidos pela mesma abertura (a cloaca) e é sempre visível uma camada branca, tornando fácil distinguir os dejectos de aves dos de outros animais.

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Por agora conseguimos controlar estas aves instalando um espantalho (o Benjamim!) no meio da horta, e tentanto aumentar a nossa permanência diária lá, para as perdizes se habituarem a ver lá gente a ocupar o território que achavem ser delas. Mas é possivel que elas desenvolvam habituação e voltem na primavera…

Couve portuguesa

A couve portuguesa sobreviveu à áltica, está-se a aguentar – na maioria das plantas – à lagarta e até ver ainda não foi afectada pelo “bago de arroz” (vamos todos fazer figas com muita força…) e estão neste estado: grandes, lindas e tão tenras que nem acredito que fomos nós (e o sol, e a chuva, e a terra, claro) que as fizemos tão bem. Não sei quanto tempo se vão aguentar assim tenras, mas temos algumas ainda pequenas que esperamos que cheguem ao natal.

Já perdemos algumas couves lombarda e coração, mas o tempo está a arrefecer bastante o que vai levar os “bichos” a hibernar em breve, pelo menos até à próxima primavera.