Fotos e Histórias

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Vida selvagem

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A nossa horta tem muitas coisas boas, que o digam os inúmeros animais que escolheram fazer por lá a sua casa. Temos coelhos que correm por todo o lado a esconderem-se assim que abrimos o portão. Perdizes que passeiam alegremente com os seus perdigotos em “fila indiana” quando não percebem que estamos por lá a ver. Ratos pequeninos do campo, que são uma verdadeira desgraça para as nossas culturas de raizes. Cobras que temos esperança serem rateiras, mas que claramente não chegam para manter os ratos controlados. Passarinhos que se deliciam a voar dentro da estufa a apanhar borboletas. Um exército bem treinado de joaninhas que é de uma eficácia esmagadora na luta contra os afideos. Temos osgas, lagartos e lagartixas, aranhas, vespas, abelhas, abelhões e ainda muitas minhocas que indicam que o solo está a ficar mais saudável.

Em suma, na nossa horta reina a biodiversidade. É verdade que nem sempre nos ajuda, e a maior parte das vezes até causa prejuízos consideráveis, que vamos tentar ir controlando ao poucos, melhorando o equilibrio entre as espécies. Mas não temos dúvidas que o modo de produção biológico é fundamental para manter todo este ecosistema que vive à nossa volta.

Couves sob ataque! – pequeno manual de controlo

Chegada a altura de plantar as couves (que este ano foi em setembro) já sabemos que um dos maiores problemas vai ser o controlo das lagartas. Se o tempo estiver quente, é a áltica ou bago de arroz com que temos de nos preocupar, mas com o tempo a arrefecer no outono e a chuva a começar a cair com regularidade, é importante arranjar estratégias para interrompermos o ciclo destas pragas da cultura. Esta foi a segunda campanha de couves que acompanhamos durante o inverno e das duas vezes detetámos apenas dois tipos de lagartas: umas totalmente verdes (Pieris rapae) e outras “peludas” e de cor preta e amarela (Pieris brassicae). Ambas vêm de ovos colocados nas folhas das couves por borboletas brancas, com 3 a 5 cm de asa, mas que são de espécies diferentes (sendo as das lagartas verdes mais pequenas). Quando se começam a avistar estas borboletas a sobrevoar a horta é tempo de começar a ficar alerta – os ovos de cor amarela são mais difíceis de detetar porque são normalmente postos na página inferior das folhas, mas se for possível eliminar os ovos antes de as lagartas eclodirem, tanto melhor.

Na nossa horta as lagartas da espécie Pieris rapae são sempre as primeiras a aparecer (figura 1), e gostam especialmente das couves chinesas, mas também da lombarda e portuguesa. Os dejetos delas – verdes como as folhas das nossas couves! – são fáceis de identificar (figura 2) e à primeira deteção deve procurar a lagarta e removê-la, e continuar a vistoria às restantes plantas. Estas lagartas verdes mimetizam muito bem as plantas onde estão e por isso são por vezes difíceis de localizar, podendo acontecer estarmos a olhar para elas e não as vermos. A vantagem é que geralmente só há uma destas lagartas por planta, e raramente mais que duas. Se detetar dejetos e não vir logo a lagarta, a nossa sugestão é perder alguns minutos a inspecionar cada folha e cada veio com atenção, porque certamente vai dar com ela e evitar estragos futuros.

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No caso das lagartas da espécie Pieris brassicae, os ovos são postos geralmente em grupos grandes (podem ser mais de 50) e por isso quando se avista uma lagarta destas ela não vai estar só – são de certeza várias, e por isso ao encontrar uma deve sempre inspecionar-se o resto da planta cuidadosamente, em particular a página inferior das folhas (figura 3). As lagartas devem ser removidas e esmagadas, todas sem excepção – uma lagarta esquecida durantes uns dias numa planta é suficiente para causar estragos que já não permitem a sua venda, por exemplo. Se a planta for jovem e as lagartas se encontrarem nas primeiras folhas não haverá problema em esmagá-las sobre a própria folha, mas se a planta já tiver atingido a maturação e estiver pronta a colher é preferível esmagá-las entre os dedos depois de as remover para não danificar as folhas nem deixar manchas ou resíduos.

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Este outono e inverno estão a ser particularmente chuvosos e húmidos o que favoreceu a atividade de uma série de pragas nas nossas couves que se viram durante algum tempo sob um ataque serrado que quase nos levou ao desespero (figuras 5 a 8) – lagartas da espécie Pieris brassicae, caracóis, lagartas da espécie Pieris rapae e este ano também as perdizes (figuras 9 e 10).

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Em relação a lagartas e caracóis, a estratégia foi simples – controlo manual. Todos os dias, a primeira tarefa ao chegar à horta, pelas 8h30, foi fazer a vistoria a cerca de 5 linhas de 40m de couve, e mais duas de brocolos – uma inspeção rigorosa e que levava cerca de 40 minutos e deu muitas dores de costas, mas que compensou. Ao fim de 3-4 semanas conseguimos interromper de alguma forma o ciclo das borboletas e passámos a encontrar lagartas apenas pontualmente a partir daí.

O ano passado adquirimos Bacillus thuringiensis para aplicação sobre as fases muito iniciais das lagartas, após a eclosão do ovo, mas nunca chegámos a utilizar. Esta bactéria que ataca as lagartas jovens tem de ser aplicada sobre as plantas secas, o que na prática nunca se mostrou viável, seja por causa da chuva ou do orvalho matinal intenso.

Em relação às perdizes foi mais complicado. Como no ano passado não tivemos problemas com elas nunca pensámos que poderiam causar grande estrago. Mas estávamos enganados – as perdizes são aves bastante territoriais, e este ano houve um grande número delas que escaparam à época de caça e que se habituaram à nossa horta. As couves (cerca de 1/3) foram debicadas e destruídas sem pena nenhuma. Ainda tentámos cobri-las com manta térmica, mas estando numa zona ventosa as couves acabavam por estar mais tempo expostas que cobertas.

Nota: identificámos a presença de perdizes não apenas por vermos o bando levantar vôo quando chegávamos à horta, mas também pelos dejetos delas no meio das couves (figura 9). Os dejetos de ave – tanto os sólidos como os líquidos – são expelidos pela mesma abertura (a cloaca) e é sempre visível uma camada branca, tornando fácil distinguir os dejectos de aves dos de outros animais.

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Por agora conseguimos controlar estas aves instalando um espantalho (o Benjamim!) no meio da horta, e tentanto aumentar a nossa permanência diária lá, para as perdizes se habituarem a ver lá gente a ocupar o território que achavem ser delas. Mas é possivel que elas desenvolvam habituação e voltem na primavera…

Pragas e auxiliares

Nem tudo são rosas no doishectaresemeio (ironia em destaque, já que aqui costumava haver uma exploração de rosas). Tínhamos uma leve esperança que as primeiras culturas não fossem fortemente visitadas por pragas uma vez que este era um terreno abandonado, onde não era feita agricultura e onde em princípio não estariam latentes vírus ou doenças específicas dalgumas das plantas que vamos produzir. Mas a fauna apareceu, como não poderia deixar de ser. A terceira semana da germinação foi crítica – até aí foi só regar de manhã e à noite e arejar, e as plantas cresciam a cada dia, fortes e saudáveis. Depois começaram a aparecer visitantes, uns “bons” outros mais indesejáveis. As couves portuguesas começaram a ficar rendilhadas por áltica (falaremos delas em pormenor noutro post), um gafanhoto verde quis ver o que se estava a passar, uma ou outra mosquinha branca (prontamente eliminadas entre polegar e o indicador), afídeos (aaahhh… afídeos é que não), e outros insectos não problemáticos, e até úteis.

Até ver, os que estão ilustrados nas fotos não fizeram qualquer estrago pelo que admitimos serem auxiliares, ou pelo menos indiferentes. Quanto aos afídeos e às álticas… Os estragos estão a ser visíveis nas couves.

A boa notícia é que os auxiliares começaram a aparecer e a fazer o seu trabalho – larvas predadoras e insectos parasitóides começam lentamente a entrar em acção, mas não sabemos se vai ser suficiente:

Braconideos do genero Aphidius a parasitar afideos
Para além dos produtos homologados para aplicação em agricultura biológica, temos outras soluções de produção caseira que queremos experimentar e que nos foram sugeridas por quem nos está a dar apoio técnico.
Deixamos aqui a receita para chorume de fetos – que é um repelente de insectos que podemos aplicar sem intervalos de segurança e que serve como acção preventiva:

 

1 kg de fetos frescos
10 L de água (de preferência da chuva)
Colocar os fetos num recipiente com 10L de água e deixar ficar cerca de 15 dias (se necessário colocar uma pedra para manter os fetos debaixo de água). Após esse período retirar as plantas e guardar o líquido/chorume. Para aplicar, diluir a 10% – ou seja, na prática 1kg de fetos dá para 100L de repelente.

 

minhocas

Quando se está no inicio as coisas parece que não andam, que demoram séculos a serem feitas, e as semanas passam a correr sem que pareça que algo foi feito. Na verdade não é bem assim, e temos as coisas mesmo mesmo prontas a arrancar.

Já andamos à procura de terra onde assentar o nosso modo de vida há algum tempo, e as coisas estão mais ou menos bem encaminhadas. Encontrámos um bom pedaço, entrámos em conversações com o proprietário, recolhemos informações junto de organismos de certificação e controlo, e também para acompanhamento técnico (sim, porque na verdade não sabemos nada disto), e até já recolhemos solo para amostras.

Não há melhor indicador para um bom solo do que a presença de organismos vivos a circular à vontade, fartámos-nos de encontrar minhocas, e com um aspecto bastante saudáveis.

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